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Notas & Comentários



  

LIMITE [2]

 

 

Semana passada,

Nelson Marques do Cineclube Natal,

gentilmente, me emprestou uma cópia de Limite.

Sabendo que eu preciso ter acesso a obra de

Mário Peixoto, e apesar de não me conhecer

e de nunca ter me visto antes, Marques não poupou esforços.

Mas ainda não (re)vi o filme, pois ainda não tive coragem.

Cheguei até a colocá-lo no aparelho de DVD.

Mas, no entanto, não quis vê-lo na condição

em que me encontrava.

A última vez que o vi foi através de trechos,

enigmáticos e obscuros.

A última vez que o vi completo (?),

– talvez já tenha se passado uns bons dez anos –

foi quando fazia História na UFRN

e pagava a disciplina de História da Arte:

o professor John Alex nos apresentou ao filme

– um filme nascido de um encontro de

Mário Peixoto com uma fotografia. (A fotografia

de uma mulher acorrentada feita

por André Kertesz).



Escrito por Marcos A. Felipe às 00h26
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LIMITE [1]

 

 

Convidado

a escrever sobre Limite

num livro com textos, críticas e ensaios sobre

cinema brasileiro, comecei a fazer

pesquisa de material. Basicamente, os livros

sobre o criador e a criatura

(hoje, esgotados)

e, claro, o filme, uma cópia do filme

– que vi no distante ano de 1997...

Por isso, outro dia falei com

Saulo Pereira de Mello.

Difícil encontrar pessoas dispostas a ajudar,

ainda bem que encontrei. Saulo,

o guardião da obra de Mário Peixoto,

é também alguém preocupado

em expandir seu acesso.

Comportamento bem distante da academia,

onde o senso de propriedade é constante.

A conversa com Saulo me fez lembrar

um documentário

que vi no GNT. Se não me engano,

se chamava Salvadores de Imagem

– Saulo, de fato, merece o epíteto.

(O Acervo Mário Peixoto, hoje,

está guardado na Videofilmes).



Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 07h47
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O que Wim Wenders está filmando?

 

 

Não consigo lembrar do set de filmagem desta imagem, principalmente porque não conheço todos os filmes do diretor de Paris, Texas (1984): se já vi o filme em questão, de fato, eu não lembro qual é. Em geral, gosto das imagens dos sets de filmagem, especificamente porque revelam o verdadeiro contracampo (ainda que desconexo) dos filmes que vemos – o outro lado da janela, o lado b e oculto que tudo move e configura. Quando comparado ao campo, o contracampo sempre se apresenta muito desorganizado e tomado por parafernálias (fios, cabos, luzes, refletores, gente, muita gente ...). Nem sei se, tais imagens, podem ser chamadas de contracampo, um conceito, essencialmente, fílmico, preso ao campo da imagem e, quase sempre, orgânico, homogêneo e relacionado aquele. No entanto, talvez essas imagens de set, onde aparecem diretores, câmera e a equipe técnica envolta, configure-se como o verdadeiro contracampo do campo que, outrora, vimos em um filme específico. Mas, enfim, qual será a cena de solidão e/ou deslocamento sobre a qual Wim Wenders está posicionando sua câmera?



Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 09h46
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ZINGU #5

 

 

Mais um número da Revista Zingu! (link ao lado) aparece no mundo das revistas online de cinema. Capitaneada pelo jovem cinéfilo paulista Matheus Trunk, a quinta edição da Zingu! traz o Dossiê Luiz Gonzaga dos Santos e um Especial sobre Carlos Motta, além das colunas comandadas por gente do calibre de um Sérgio Andrade, Marcelo Carrard e Andréa Ormond. Neste número, a colaboração de Eduardo Aguilar se torna permanente na coluna “Cantinho do Aguilar”, uma ótima notícia para os que acompanhavam o blog CineRebeldia. Mesmo que não fosse a boa crítica de cinema que se desenvolve em suas páginas, a Zingu! já se tornou uma visita obrigatória, particularmente por me fazer lembrar dos filmes que vi na infância de diretores (?), atores (?) ou personagens (?) como Teixeirinha, Toni Vieira e Cara de Gato, Chico Mineiro (?), etc. Apesar de nunca mais ter visto qualquer coisa destes diretores/atores/personagens ou procurado saber quem são (com exceção do nobre gaúcho citado), nem de saber de onde vêm ou onde estão, tenho a ligeira impressão que pertencem ao mundo cinemático e emocional do Matheus Trunk e sua trupe.



Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 12h57
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O menino Hunter Carson personagem de Paris, Texas (1984, Wim Wenders).

 

 

O garoto tinha somente nove anos quando Wim Wenders apostou que ele seria o personagem ideal para integrar o elenco de Paris, Texas. Personagem chave, o elo entre os dois personagens principais (Travis e Jane) e a única certeza que aquele amor que se tornara impossível e improvável de ser efetivado poderia ser (re)configurado novamente. A primeira vez que Carson mantém contato direto com Travis há anos ausente, se bem me lembro, é na sequência da exibição do super-8, quando, dentro do filme, um outro filme mostra seus pais em momentos de afeto em uma praia do litoral americano. Quando isso acontece, ambos pegam a estrada a procura de Jane, intensificando, cada vez mais, o filme de busca que marca Paris, Texas desde o início - busca, essencialmente, afetiva, assim como a busca de Travis, no começo do filme no interior da América, tinha sido uma busca pelos primórdios, da mesma forma que a fotografia de Robby Muller e a guitarra de Ry Cooder correspondem, respectivamente, a busa das cores e sons dos EUA. Acompanhado por um roteiro que, a cada encontro, promove novas relações e desestrutura relações anteriores, a personagem de Hunter Carsom chega a Jane em um final de tarde, a partir de um encontro mediado pelo esforço conjunto de Travis e Jane para restituir o afeto materno estilhaçado no passado.



Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 23h52
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MICHELANGELO ANTONIONI
(Caetano Veloso)

 


Não sei em qual disco, não fiz pesquisa pra saber quando foi lançada, nem mesmo se música e letra são de autoria de Caetano Veloso. Mas, ao vivo, apresenta-se como uma bela canção, um canto de amor e reverência ao Cineasta de Ferrara (Michelangelo Antonioni): autor de pelo menos dez obras-primas da Sétima Arte – sendo que a principal de todas elas é L’Avventura (1960). Em violão e voz, na performance contida do compositor e cantor brasileiro, a música “Michelangelo Antonioni” soa como um instante etéreo de extremo lirismo.

 

 

LETRA:


”Visione del silenzio
Angolo vuoto
Pagina senza parole
Una lettera scritta sopra un visio
Di pietra e vapore
Amore
Inutile finestra”


Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 00h10
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DOCUMENTÁRIOS & REVISTAS

 

 

CABRA MARCADO PARA MORRER

 

Em seu documentário realizado no decorrer de quase vinte anos, Eduardo Coutinho produz espaços de memória, onde, entre um fragmento e outro, os personagens retornam a um duplo-passado: o da participação na ficção cinematográfica sobre as Ligas Camponesas iniciada na primeira metade da década de 60 e, consequentemente, o do contexto da instituição da Ditadura Militar no Brasil com o Golpe de 64. Organizando os filmes que estão em inúmeros CDs e DVDs avulsos que tenho espalhados em nossa casa, deparei-me ontem mais uma vez com esse clássico do cinema documental brasileiro, com a história particular de Elizabeth Teixeira e a busca de um documentarista para também recompor, ainda que no plano do cinema, uma família fragmentada.

 

 

NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR

 

Outro filme que encontrei perdido entre os meus CDs e DVDs foi a obra de João Moreira Salles e Kátia Lund, que se constitui em documento imprescindível sobre a sociedade do tráfico de drogas no RJ. A partir dos seus personagens constitutivos, entramos em contato com três mundos distintos, mas em constante relação: o mundo dos traficantes, o mundo dos policiais e o mundo dos moradores. Em cada um destes mundos, outros tantos mundos particulares em jogo, a saber, o tráfico como terror social e, ao mesmo tempo, como proteção as comunidades (favelas); a instância policial como repressão de Estado e, paralelamente, a consciência de que esse não é o caminho para a solução do problema; o morador como espaço de proteção e repressão dos outros mundos envolvidos.

 

 

 

PREÁ – REVISTA DE CULTURA

 

Quando eu pensei que a Preá – Revista de Cultura tinha morrido, eis que sai mais uma edição com preciosos textos, principalmente, sobre o universo artístico, histórico e cultural potiguar. No entanto, o que já venho notando desde sempre, parece que coube a coluna que desenvolvo criar janelas para outros espaços que não necessariamente os que se referem, eminentemente, aos espaços locais – ainda que isso não seja propositalmente estabelecido ou encampado para ser o que é, mesmo que, em parte, cause um certo deslocamento que não deve agradar nem um pouco aos seguidores potiguares de Ariano Suassuna. Como na época eu tinha visto O Homem Urso (2005, de Werner Herzog), a coluna Foco Potiguar portanto versa sobre esse documentário.

 

LEIA O ARTIGO

clique aqui

 

 

REVISTA ZINGU!

 

Mais um número da Revista Zingu! no ar com especial sobre Howard Hawks.

 

(Zingu! – Link ao lado)



Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 20h44
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A ÚLTIMA NOITE

 

 

Na última terça-feira passei por um dos momentos mais difíceis de minha vida, algo que nunca tinha sentido ou presenciado antes. Na hora minha primeira reação, quase instintiva e imediata, foi pedir a Tatyana para não olhar. Mas não adiantou muito. Quando parei o carro, ela saiu correndo em direção ao acidente. Há poucos segundos, coisa de três a cinco, uma Pajero verde que estava a nossa frente entrou na lateral de um Pálio cinza, atravessando e quase que, fisicamente, partindo-o em dois. Nestes exatos segundos, o tempo, praticamente, parou, gerando uma sensação de câmera lenta diante da pancada forte seguida dos estilhaços caindo no chão e, conseqüentemente, da poeira de vidro que, literalmente, estendeu-se como uma cortina diante de nós. Quando corri para o carro do acidente, Tatyana já estava lá, bem próxima e com o olhar de tristeza. Estendido na porta do carona, caindo dependurado para fora do carro, a metade do corpo de uma jovem moça de longos cabelos castanhos. Ela tinha por volta de vinte e poucos anos. Não vi as marcas de suas feições (cobertas de sangue), não sei da cor dos seus olhos (fechados), qual o seu nome ou como a chamavam.

 

Quando nos aproximamos, eu e outro rapaz (coincidentemente, um médico) notamos a presença de mais duas jovens dentro do carro. O acidente então logo ficou cercado por pessoas da vizinhança que correram para saber o que aconteceu e para ajudar – e ajudaram! Senti no momento que o corpo daquela moça já não tinha mais tanta vida, que já não estava mais cheia de tantos sonhos e desejos e que não mais respirava, tinha sede ou fome como antes. Desde quando, há alguns anos, sai ileso de um acidente de carro que eu não sentia a sensação de uma vida se esvaindo de um corpo que não conseguia mais o movimento. Mas, como se já não bastasse aquele corpo estendido e as outras jovens feridas, o drama se intensificou quando vimos um carro-de-bebê vazio no banco traseiro – desses que as mães acoplam ao banco traseiro para levarem seus bebês em viagens curtas ou longas. Graças a Deus não tinha nenhuma criança no carro, graças a Deus aquela criança não estava lá. Talvez, ela tenha ficado na casa de alguma avó, tia ou parente esperando o retorno de sua mãe. No dia seguinte viajei para Maceió/AL e, hoje, quando voltei, Tatyana me falou que saiu no noticiário local que ninguém tinha morrido no acidente.

 

 

 

 

LANÇAMENTOS

 

 

Saiu mais um número da Zingu! (link ao lado) e, em Natal, estreou Volver e A Última Noite.

 

Viver a vida!



Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 13h20
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I’m not there

 

 

Cate Blanchett que, sob as lentes de Todd Haynes, fará o papel de Robert “Dylan” Zimmermann no cinema. Apenas um(a) dos(as) seis atores/atrizes que interpretarão personagens que percorrem diversos momentos da história de Bob Dylan, Blanchett ficou com o encargo mais difícil: o de representar, reconstruir ou viver a persona Dylan em sua fase elétrica ou no período em que o jovem cantor/compositor que, vindo do meio-oeste para Nova Iorque, se transformou em mito –  basicamente, a fase dos discos Bringing It All Back Home (1965) e Highway 61 Revisited (1965) e, sobretudo, da fatídica turnê em Londres onde fora tachado de “Judas!” por um grito anônimo que ecoou da platéia. Fase que, antes de tudo, imprimiu em canções e performances um ser em transe e capaz de demover um ídolo depois de, humildemente, o ter (re)erguido através de sua palavra, a partir de sua voz e violão. Considerado um dos (re)inventores da música folk, nas palavras do poeta Eucanãa Ferraz, a voz de Bob Dylan é como um antigo arranha-céu, vertical, em meio a plantações de milho, voz única e desamparada que, nela, é possível ouvir-se muitas outras vozes, de tantos outros lugares, épocas e estilos.

 

(A última Rolling Stone Brasil, n. 02, está com uma ótima matéria sobre o filme).



Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 21h28
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CONSTANTIN COSTA-GAVRAS

 

 

O longa-metragem "Estado de Sítio" (1973, de Constantin Costa-Gavras) é sobre a influência dos Estados Unidos nas Ditaduras Militares da América Latina. A partir de uma operação de seqüestro feita pelos Tupamaros (organização uruguaia responsável pela luta armada), cujo alvo era o norte-americano colaborador da polícia militar Philip Michel Santore (Yves Montand), o filme se aproxima de um painel daquela estrutura montada para dobrar o corpo e a mente, destruir partidos político-sindicais e desbaratar organizações estudantis. Ao longo de suas seqüências, algumas cenas são marcantes: a operação seqüestro encenada como um sistema, onde carros, detidos e guerrilheiros se sucedem, quase sem fim, entre uma cena e outra; e o interrogatório realizado pelo guerrilheiro como uma marcha de guerra sem trégua, onde a produção da informação depende apenas da articulação entre fatos, fontes e personagens. No entanto, na cena em que uma platéia assiste o limite do homem em processo, a tortura torna-se objeto de aprendizagem.

 

O USA Today no último dia 10 de novembro, em matéria escrita por Bárbara Slavin cuja tradução foi publicada no UOL Mídia Global, noticia a retomada dos Estados Unidos em relação ao treinamento de militares em países da América Latina. Com a crescente vitória de candidatos voltados mais à esquerda, a Casa Branca acabou com a lei que, a partir de 2002, impedia toda e qualquer assistência militar aos países latino-americanos e do Caribe. No entanto, mesmo após memorando enviado a secretária de Estado Condoleezza Rice, o governo George W. Bush não concederá treinamento militar aos países que não isentarem oficiais americanos de julgamentos de crimes de guerra e, portanto, da Corte Criminal Internacional. Dentre os países contemplados, cujo número chega a 25, estão o México, Trinidad e Tobago e Brasil. Além da isenção, segundo Slavin, a suspensão da Lei visa também (1) o enfraquecimento da esquerda na região e (2) a intensificação da influência dos Estados Unidos em tais países.

 

Alguns questionamentos, de imediato, surgem diante dessa medida governamental americana. Dentre tantos, um é necessário por estar no campo do significado e da História. Por isso, cabe perguntar o que significa, exatamente, enfraquecer a tendência mais a esquerda e intensificar a influência dos EUA na América Latina e Caribe a partir do treinamento militar de oficiais de outros países. Na história dessa região onde as veias encontram-se, permanentemente, abertas (expressão cunhada por Eduardo Galeano em um livro já clássico), uma das últimas vezes em que os EUA ofereceram treinamento militar acabou resultando em depoimentos como os que encontramos no livro “Brasil: Nunca Mais”, organizado a partir dos relatos de presos políticos colhidos nos autos da própria justiça militar. Um dos depoimentos, o de Murilo Pinto da Silva, 22, é revelador: “que, quando esteve na PE-GB, o interrogado e seus companheiros serviram de cobaia a demonstrações práticas de torturas em aulas ministradas a elementos das Forças Armadas”.

 

A estudante Dulce Chaves Pandolfi, 24, quando presa no quartel da rua Barão de Mesquita, RJ, também serviu de cobaia para uma platéia de oficiais, em 1970: “Na Polícia do Exército, a supte. foi submetida a espan­camento inteiramente despida, bem como a choques elétricos e outros suplícios, com o “pau-de-arara”. Depois de conduzida à cela, onde foi assistida por médico, a supte. foi, após algum tempo, novamente seviciada com requintes de crueldade numa demonstração de como deveria ser feita a tortura”. Rotineira, a prática da tortura não apenas foi instituída nos porões da Ditadura Militar, mas alçada a categoria de objeto de aprendizagem com demonstrações e aulas às forças armadas brasileiras de como era possível dobrar a relação corpo-mente. Já é do conhecimento da História que, no Brasil e na América Latina, o cidadão norte-americano Dan Mitrione foi um dos primeiros a introduzir tal método no período do regime ditatorial logo nos primeiros anos. Quando transferido para Montevidéu, Mitrione acabou sendo seqüestrado e morto.



Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 01h18
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