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Livros



 

A INVENÇÃO DE MARIENBAD

 

 

I

 

Quando, ainda na adolescência, entrei em contato de forma mais sistemática com a literatura, meu conhecimento de que este romance diferia daquele em estilo, gênero ou relação com a tradição literária era tão insignificante que não fazia qualquer diferença ler um Machado de Assis ouvindo meus antigos discos de rock (especificamente o Led Zeppelin IV, cuja capa do disco trazia um homem com um facho de lenha nas costas) ou até mesmo Guerra e Paz em edição de bolso – e ainda assim achar que, verdadeiramente, os tinha lido. Ontem comecei a ler A Invenção de Morel (1940, Adolfo Bioy Casares) sem nem mesmo ter terminado Grande Sertão: Veredas. Com isso, digo que voltei a minha antiga forma em relação a literatura e ao tempo em que lia livros (vale a redundância).

 

Tempo em que livros se sobrepunham e, ao invés de aguardar o término de um para iniciar outro, eu simplesmente colocava a leitura do momento em espera porque a urgência de me dedicar a uma descoberta literária tomava toda a minha atenção. Tempo em que também dois ou mais livros repousavam ao mesmo tempo em minha cabeceira. Talvez, com A Invenção de Morel e, conseqüentemente, a condição de espera que ficou relegado mo romance Grande Sertão: Veredas, essa boa forma tenha voltado a ativa. Mas não é para falar sobre o meu pendor para a literatura, o que, definitivamente, não tenho, nem para convencer o leitor dos meus supostos dotes literários, que, de fato, não disponho, ou para enfileirar livros que, em parte, acabamos deixando para trás, que este post se justifica.

 

II

 

Ao iniciar A Invenção de Morel, quando ainda Adolfo Bioy Casares está apresentando seu personagem e criando a atmosfera para o seu curto romance, logo um trecho chamou minha atenção: “Ontem à noite, pela centésima vez, dormi nesta ilha vazia... Vendo as construções, pensava em quanto custara trazer aquelas pedras e como teria sido fácil erigir uma olaria. Dormi tarde, e a música e os gritos me despertaram de madrugada. A vida de fugitivo tornou meu sono mais leve: tenho certeza que não chegou nenhum barco, nenhum aeroplano, nenhum dirigível. Ainda assim, de uma hora para a outra, na pesada noite de verão, os capinzais da colina cobriram-se de gente que dança, passeia e se banha na piscina, como veranistas instalados há tempos em Los Teques ou Marienbad”.

 

Pouco afeito a orelhas de livro ou a préfacil, que só consulto depois que termino o romance ou a não-ficção em leitura, só os li após a referência a Marienbad. Como não sabia da influência de Casares sobre Resnais (Ano Passado em Marienbad, 1961), o trecho em questão me pegou de surpresa e mudou meus rumos em relação ao clássico de Bioy Casares admirado por Jorge Luis Borges (Prólogo). Se foi possível esquecer um pouco a obra-prima de João Guimarães Rosa, mesmo que a tão famigerada revolução na linguagem aos poucos estivesse sendo relativizada diante de outros importantes elementos (sobretudo o papel da memória desmitificando a instituição do Jagunço e toda uma cultura ao seu redor), A Invenção de Morel não tem porque não aguardar um pouco até eu ter acesso ao filme francês.

 

III

 

Nas palavras do escritor, professor e bloguero Moacy Cirne (do blog Balaio Vermelho – link ao lado): "A invenção de Morel é um dos grandes livros do século XX. Mas a sua relação com O Ano Passado em Marienbad, ou melhor, a relação intertextual de Resnais/Robbe-Grillet com Adolfo Bioy Casares deve passar por mediações absolutamente indiretas, centradas na 'opacidade/ambiguidade' das duas obras, no campo de reflexos que se querem Memória". "Registre-se", ainda segundo Cirne, "que até a realização do filme, Resnais não conhecia a novela argentina. Mas Robbe-Grillet a conhecia. Ao tomar conhecimento do resumo do livro, em entrevista, o cineasta admitiu que a relação entre os dois (obra literária/obra cinematográfica) era sem dúvida notável" (transcrito dos comments).



Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 21h57
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L.I.V.R.O.

"O TEXTO INCITÁVEL"

 

 

O teórico Raymond Bellour, por um tempo, colocou em xeque a análise de filmes e a crítica de cinema como um todo. Sua teoria do cinema como “texto incitável” é um tanto quanto desencorajadora para quem se propõe investir sua interpretação sobre o sentido de um filme, sobretudo porque, ao se referir a todo e qualquer sentido, a análise em si necessita de um mínimo de referencial, demonstração ou qualquer outra forma de especificar o que ou a partir do que se estabelece esta ou aquela afirmativa, observação e/ou comentário. Portanto, o caráter incitável da imagem de cinema dá-se, primeiramente, em função do aspecto fugidio da imagem fílmica (a imagem em movimento), o que a torna, materialmente, impossível de ser encontrada. Conseqüentemente, assim, o analista (crítico, teórico ou cinéfilo) trabalha sobre um objeto movediço, cuja natureza é, antes de tudo, marcada por uma temporalidade física (plano a plano) e por um movimento (24 quadros por segundo) ainda que ilusório.

 

 

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“O TEXTO INCITÁVEL”

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Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 00h57
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BUÑUEL NA CROISETTE NUMA MANHÃ DE FESTIVAL

 

 

O livro Ainda Temos Tempo (2006, CosacNaify) congrega dois aspectos que, cada vez mais, ocupam parte do meu imaginário: um livro sobre cinema na vertente da literatura de viagem. Escrito por Leon Cakoff que, anualmente, organiza a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Ainda Temos Tempo é um livro de memórias sobre viagens por paises que realizam ou ensejam festivais de cinema. Com histórias singulares, carrega o sabor que, inevitavelmente, permeia todo viajante: “Viajar é sempre um ato predador” e “quem viaja leva o ato de trazer”. Quando relata seu encontro com Luis Buñuel (O Anjo Exterminador, 1962), a impressão inicial é a de um homem amargurado com a implacabilidade do tempo. Amargura que não domina Leon Cakoff, feliz por encontrar um dos mestres da história do cinema, em 1971, numa caminhada premeditada pela Croisette (a avenida que contorna a baía de Cannes),  mas Buñuel, o genial diretor de O Discreto Charme da Burguesia (1972). Por mais de uma vez, Cakoff se refere ao mau-humor do velho mestre espanhol, as constantes referências feitas a idade já avançada (na época, 72 anos) que não lhe permitia mais ver filmes após às 22h e ao seu estado físico com o arrastar da perna esquerda e a surdez determinando as fotos sempre de perfil. No entanto, essa imagem mau-humorada de Buñuel logo se dissipa sob a pena de Leon Cakoff quando, naquela manhã francesa, Glenda Jackson se aproxima e passa por ambos sem reconhecer o surrealista em carne e osso. Poucos passos depois, Buñuel segura o braço de Cakoff, olha para trás e solta uma de suas máximas lapidares: “Que es fea, es ... Pero me habla ao carajo”.

 

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Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 17h07
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MUNUMENT VALEY – EUA

 

 

(Entrevista feita por Peter Bogdanovich no filme Directed by John Ford (1971)).

 

John Ford é entrevistado por Peter Bogdanovich tendo como pano de fundo o Monument Valley, EUA.

 

Operador de claquete (fora de quadro):

Onze, primeira tomada.

 

John Ford:

Primeira tomada? Não vai haver mais de uma, vai? Roda.

 

Peter Bogdanovich (fora de quadro):

Sr. Ford, notei que sua visão do Oeste tornou-se cada vez mais triste e melancólica ao longo dos anos. Comparando, por exemplo, Caravana dos Bravos a O Homem que Matou o Fascinora, o senhor se deu conta da mudança de ânimo?

 

John Ford:

Não, não.

 

Peter Bogdanovich:

Agora que levantei a questão, há algo que o sr. gostaria de dizer a respeito?

 

John Ford:

Não sei do que você está falando.

 

Peter Bogdanovich:

Posso lhe perguntar qual foi o elemento particular do do Oeste que o atraiu desde o início?

 

John Ford:

Não sei dizer.

 

Peter Bogdanovich:

Concorda que a tese de Sangue de Herói era de que a tradição do Exército era mais importante que um indivíduo?

 

John Ford:

Corta!

 

 

[SCORSESE, Martin; WILSON, Michael Henry. Uma viagem pessoal pelo cinema americano. São Paulo: Cosac Naify, 2004. p. 51.]

 

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Escrito por Marcos Aurélio Felipe às 17h04
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